terça-feira, 21 de maio de 2013

poema do coração no infinitivo.

Redigirei agora o poema do coração apertado
No papel escrever, rasgar e atirar aos sete ventos
Deixar levar por cem quilômetros, ou trezentos
Para que não fiquem assim como eu tão sedentos
E que sejam totalmente livres para no céu se encontrarem

Redigirei agora o poema do coração frio
No papel escrever, amassar e deixar que o fogo o arda
Manejar as cinzas que abrasam a flama
Permitir que seja consumido o vazio
Que a minha folha se nega em queimar

Redigirei agora o poema do coração amargo
No papel escrever, adoçar e engolir
Silenciar a alma que chora e a fazer reluzir
Abrandar as entranhas que me negaram abrigo
E submergir as vísceras a me devorar

Redigirei agora o poema do coração partido
No papel escrever, guardar e fugir
Deixar teus braços cansados e partir
Conservar meu sofrido coração cansado 
E antigos poemas ternos ousar evocar.

Carlos Antônio (Júnior)

conserva do fardo.

Eu sei que andei distante
Até fiquei um pouco afastado
Mas saibas que em nenhum instante 
Dos meus pensamentos a havia tirado
Me olhastes tão profundamente
Com os teus olhos de saudade
Que até por alguns instantes
Pensei eu ser uma miragem
Sei que despossui meus afagos
Não carrego mais meu calor
Só trago nesse meu peito o fado
E na memoria aquilo que já passou.

Carlos Antônio (Júnior)

suposição da vida baiana.

Ah se eu escutasse o que mamãe dizia
Pra não ir pro samba e não fazer poesia
Talvez agora não estaria chorando
Talvez até estaria compondo ou cantando

E se até não tivesse a noite fugido
Pelo Pelourinho louca a ladeira descer
Sair de maneira depressa, corrido
Talvez não estivesse agora a sofrer

Ah se não tivesse a noite inteira
Minha saia de renda rodado
Na enorme roda de capoeira
Minha tristeza não teria cessado

Mas se não tivesse feito tudo isso
Não teria me apaixonado
De um sentimento não seria submisso
E os meus silêncios não teria calado.

Carlos Antônio (Júnior)

pensamento existencial.

Uma parte de mim é angustia, outra me aflora a melancolia, e nesse latifúndio que me aguarda e que não hesito em renunciar meu trágico, resisto, se tão pouco somos se comparado ao eterno, o eterno não é nada se comparado ao além.

Carlos Antônio (Júnior)

tua dona.

Queria ser dona do teu sorriso 
Facilmente de ser tirado
Dos teus abraços apertados
Daqueles teus beijos de lado

Queria ser dona do teu andado
Um tanto sempre apressado
Do teu cabelo cortado
E dos teus pelos dourados

Queria ser dona dos teus olhos
Um pouco cerrados
Dos teus gestos pensados
Dos teus ombros cansados

Queria ser dona dos teus defeitos
Um pouco levados
Dormir no teu peito
Tomar banho pelados

Queria ser dona do teu jeito 
Um tanto calado
Do teu timbre perfeito
Provar do teu mesmo pecado.

Carlos Antônio (Júnior)

poeminha da distração.

Um gato?
Um ladrão disfarçado?
Ouvi um sussurro
Vindo do escuro

Percebi n'um instante
Que nada disso era
Foi meu pensamento distante
Que bateu na janela.

Carlos Antônio (Júnior)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

carência.

Carta diária de um solitário carente do dia 20 de maio
Venho por intermédio desta, afirmar que não morri, não me isolei, não desenvolvi uma depressão ou síndrome do pânico, nem estou ilhado em meus aposentos, mas de qualquer forma, muito obrigado por sua preocupação tamanha, agradeço a todas suas cartas escritas e corrigidas minuciosamente diversas vezes antes de me enviar pelos correios, que por negligência desses novos carteiros, deve ter sido entregue na casa ao lado, não se preocupe, elas já devem ter sido lidas, mas não por mim. Agradeço também aos inúmeros emails que você me destinou todo esse tempo, com toda a magnificência e indicações de filmes que você com certeza fez, mas ao enviar, descuidou e esqueceu-se de alguma letra ou ponto no meu e-mail, o que não foi possível o recebimento dos tais. Tenho a ti gratidão eterna às ligações que me fizeste só para ouvir minha voz, mas que não eram realizadas corretamente por conta do sinal de rede, essas companhias de telefonia estão cada dia mais complicadas e sempre fazem a gente de palhaço! Obrigado pelos sms's que você me mandou, mas que foram barrados por falta de crédito e foram olvidados de serem tentados posteriormente por distração. Obrigado pelas visitas que você me fez, mas pelo horário tardio, e a porta lhe receber sempre fechada, fazia você ficar com receio de chamar por achar que dormia, por fim, reconheço seus esforços por saber como ando, se estou bem, se ainda respiro etc e tal...

Carlos Antônio (Júnior)