É como um soldado que vai à guerra deixando todos os sonhos, família, amigos. Arrisca sua vida por uma ideologia que compraram para ele. De peito inflado e espírito retraído caminha em marcha rítmica constante. Cada passo e cada piso forte no chão um pouco de sua esperança em voltar se dissipa em meio a ideia de batalha; muito mais pessoal, psíquica, do que propriamente dita. Poderia ele simplesmente voltar covardemente, se não estivesse na linha frente, ali com sua cara a tapa. Em sua mão está uma arma que não sabe manusear, irá aprender quando o instinto de sobrevivência falar mais alto. A verdade é que ele já sabe usar, seu instinto de sobrevivência está no limite, afinal, manejar uma arma não requer curso intensivo. Ao visualizar a tropa inimiga, treme e debocha de si mesmo por estar ali. Vê o filme de sua vida passar por sua cabeça e o frio da morte submergir de suas entranhas mais profundas para o corpo todo; quase um parto personificado da fraqueza. É como ser atingido em cheio no braço cujo carregava a arma, sem chance nenhuma de revidar. Nessas condições então cair no chão inconsciente e aparentemente derrotado e sobre ele cair meia dúzia de colegas também temerosos. Acordar depois na enfermaria improvisada e sem o braço. É como voltar para casa depois de tudo, feliz por estar vivo, porém, amputado.
Carlos Ant.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
trabalho noturno
em meio às caixas
sobre o calor noturno
trabalho árduo
baixas
tamanho horror
já são quase cinco
as horas dormem
as horas dormem
o sol se perdeu
a fome me toma
sem pudor
o salário
não compra
mas paga
me leva
aos poucos
de dor
o braço é forte
mas só o braço
não merece
valor
sorria para o chefe
põe ponto final
guarda o papel
a poesia acabou.
Carlos Ant.
o salário
não compra
mas paga
me leva
aos poucos
de dor
o braço é forte
mas só o braço
não merece
valor
sorria para o chefe
põe ponto final
guarda o papel
a poesia acabou.
Carlos Ant.
Cipriano
Aos poucos Cipriano foi crescendo e conhecendo o sentido e o significado de tudo, sua madrinha havia de ter lhe dado boa educação, era um jovem conhecedor de arte e de culturas de diferentes países, sabia se portar quando em público, tinha boa sociabilidade, gastava boa parte de seu tempo livre à leitura de bons livros e fazia anotações sempre que possível. Tanto que quando surgia a pergunta dos familiares ilegítimos - que tinha por eles tanto sentimento quanto como se fossem parentescos de primeiros graus - o que viria a ser quando se tivesse a idade para tomar uma função para si, esperavam sempre uma resposta mais consistente, acreditando que o jovem mudaria de ideia sempre que indagado, como médico ou professor por exemplo. Pois respondia sem vacilar: "Escritor" completava ainda: "Quero ser um famoso escritor". Desiludia a família toda com sua réplica, apesar de não ser tão notório assim tal fato. Cipriano desenvolveu-se como toda criança em condições normais, mesmo que com algumas dificuldades. Sua madrinha que a chamava desde quando aprendeu a falar- que inclusive fora sua primeira palavra compreensível - de Ana, apesar de seu nome ser Joana, sempre fizera de tudo para pagar boa escola, comprar boas vestes, livros, mesmo que isso custasse a ela, uma privação de pequenos luxos para si. Antônio carregava no braço um terço da medalha milagrosa como uma forma de manter o único contato de sua mãe consigo, ou como um amuleto que acreditava lhe trazer boa sorte.
Quando completou dezesseis anos, foi chamado em seu quarto por Joana para uma conversa, que ela havia adiado a anos por não saber como elucidar de uma melhor maneira possível. Antes, ela acende um cigarro e traga, tira-o da boca. Olha para o cigarro agora como quem olhasse para uma ampulheta, deixa a nicotina queimar lentamente. Sopra a fumaça e a acha incrivelmente desafiadora agora e queria que a névoa maldita saísse de seu interior com as palavras exatas; que fizesse audível ao pobre rapaz sem que ela precisasse falar nada. Respira fundo e aceita que ela tem que assumir o papel incumbido a ela, promete em seu pensamento que o tempo da espera será marcado pela queima do cigarro, que não tem pressa na combustão. Fato que deixa Cipriano apreensivo, por ver Ana fumando conclui que ela está nervosa, e conclui certo. Ana está frenética e corta o silêncio angustiante pouco antes do cigarro entrar totalmente em combustão:
- Preciso falar uma coisa séria a você, já deveria ter contado antes, mas não sabia como lhe falar - o que é verdade - e estou fumando esse cigarro, não porque eu esteja agitada ou coisa parecida, é por conta do frio que está fazendo hoje - o que é mentira.
- Ana, você sabe que sempre pôde falar o que quisesse comigo, tenho-lhe como minha mãe, isso é imutável. Disse ele em resposta tentando passar uma tranquilidade que ele não tinha naquele momento.
- Querido - despensa sobre a janela a bituca inútil e volta-se a ele - você ainda é muito novo, as pessoas não são tão boas quanto aparentam ser, e o meu maior medo é de lhe perder! - balbuciou ela.
- Pois de antemão fique sabendo que nada que você fez ou fizer me fará mudar de ideia, sei o quanto as pessoas são repugnantes e o que elas são capazes de fazer para conseguir seu objetivo, ao contrário, existem pessoas que são exemplo da existência Deus - disse com um sorriso no rosto fraterno, dando a entender que era dela que ele falava.
- Se você soubesse exatamente o que as pessoas fazem para conseguirem o que querem você sentiria nojo. Chamei você aqui para lhe dizer isto: Não acredite em ninguém, não crie expectativas sobre ninguém! - falou séria lançando um olhar de soslaio ao jovem enquanto se virava de costas - Nem mesmo em mim - finalizou com um suspiro rápido.
- Ana, não estou entendendo o que você quer dizer com isso! Está me deixando nervoso.
- Sua mãe não morreu no parto, eu tirei você dela. Além de você agora, ninguém sabe disso - virou para ele com os olhos cheios de lágrimas e arrependida.
(...)
Carlos Ant.
Quando completou dezesseis anos, foi chamado em seu quarto por Joana para uma conversa, que ela havia adiado a anos por não saber como elucidar de uma melhor maneira possível. Antes, ela acende um cigarro e traga, tira-o da boca. Olha para o cigarro agora como quem olhasse para uma ampulheta, deixa a nicotina queimar lentamente. Sopra a fumaça e a acha incrivelmente desafiadora agora e queria que a névoa maldita saísse de seu interior com as palavras exatas; que fizesse audível ao pobre rapaz sem que ela precisasse falar nada. Respira fundo e aceita que ela tem que assumir o papel incumbido a ela, promete em seu pensamento que o tempo da espera será marcado pela queima do cigarro, que não tem pressa na combustão. Fato que deixa Cipriano apreensivo, por ver Ana fumando conclui que ela está nervosa, e conclui certo. Ana está frenética e corta o silêncio angustiante pouco antes do cigarro entrar totalmente em combustão:
- Preciso falar uma coisa séria a você, já deveria ter contado antes, mas não sabia como lhe falar - o que é verdade - e estou fumando esse cigarro, não porque eu esteja agitada ou coisa parecida, é por conta do frio que está fazendo hoje - o que é mentira.
- Ana, você sabe que sempre pôde falar o que quisesse comigo, tenho-lhe como minha mãe, isso é imutável. Disse ele em resposta tentando passar uma tranquilidade que ele não tinha naquele momento.
- Querido - despensa sobre a janela a bituca inútil e volta-se a ele - você ainda é muito novo, as pessoas não são tão boas quanto aparentam ser, e o meu maior medo é de lhe perder! - balbuciou ela.
- Pois de antemão fique sabendo que nada que você fez ou fizer me fará mudar de ideia, sei o quanto as pessoas são repugnantes e o que elas são capazes de fazer para conseguir seu objetivo, ao contrário, existem pessoas que são exemplo da existência Deus - disse com um sorriso no rosto fraterno, dando a entender que era dela que ele falava.
- Se você soubesse exatamente o que as pessoas fazem para conseguirem o que querem você sentiria nojo. Chamei você aqui para lhe dizer isto: Não acredite em ninguém, não crie expectativas sobre ninguém! - falou séria lançando um olhar de soslaio ao jovem enquanto se virava de costas - Nem mesmo em mim - finalizou com um suspiro rápido.
- Ana, não estou entendendo o que você quer dizer com isso! Está me deixando nervoso.
- Sua mãe não morreu no parto, eu tirei você dela. Além de você agora, ninguém sabe disso - virou para ele com os olhos cheios de lágrimas e arrependida.
(...)
Carlos Ant.
Epístola
Enfeita meu colo o colar de uma tênue corda alaranjada, uma gravata que guarnece e maquila meu total desespero. Sobre a cadeira, em pé, me sinto mais alta e mais eminente, quase narcisista, quase megalomaníaca. Borro meu batom com o rosto de minha mão suada e sinto o vermelho-gosto-sangue sucumbir em minha boca seca. O resto que faço não cobre o drama. Uso meu melhor vestido modelado especialmente para meu corpo e para esta data especial. É especial para mim. O salto preto e de maior tamanho que tenho, as vezes, faz eu adiantar uma possível queda não ensaiada, e quase tropeço. Acho poético o cordão que abraça meu pescoço, lembrando freudicamente o cordão que ligava-me a minha mãe, este segundo pelo umbigo, quando vim ao mundo. Poderia usar a arma que descansa em minha gaveta, guardada para uma dessas ocasiões cujo brincar de ser poeta não me salva mais, mas não posso sujar o tapete de sangue. Ou até mesmo uma faca, que por um descuido gramatical não se tornou um verbo de ação e poderia me custar uma orelha, ou duas, ou três, mas não posso sujar meu tapete de sangue.
Meus pensamentos fluem com naturalidade e lucidez. Seguro a caneta e rabisco tudo o que irá ocorrer, como uma visão de um futuro próximo neste papel em uma imagem digna de abertura de algum filme - dez segundos com a câmera parada em um plano americano e aproximando-se para um plano fechado a se perder em meus olhos de desespero em um plano detalhe - para depois do corte abrupto e dois segundos de tela preta, em plano sequência, explicar o motivo de tudo. Já a cena final é a mesma, porém, desta vez estou a ler o rascunho, ao fundo, um piano triste me acompanha - a câmera faz o revés, saindo do plano detalhe em meus lábios, que pronunciam as ultimas palavras enquanto viva, para o plano médio. A câmera estaciona calmamente ali, em minha frente. Acabo a leitura. Olho para você através da lente, que espera aflito le grand finale. Movimento levemente as articulações do meu joelho para frente. Pode-se observar meu pé direito a convulsionar com o frio instantâneo e inexplicável. E, neste momento o que move é apenas meu pé direito posto à riste. Fecho meus olhos. O piano silencia gradualmente. A expectativa do que se seguirá cresce e eu não penso mais em nada. Aos que leem, arrastam os olhos rápidos à espera da frase exata que se encaixará perfeitamente na suposição já anunciada. Aos que assistem, roem as unhas em um ato ansioso e mecânico. A mim, canto mentalmente uma canção de ninar que não tenho certeza se uma das primeiras que ouvi em vida. "Nan, nan, nan, nan, dorme filhinha, do meu coração, deite o seu sono, sobre esta canção". Em um impulso, jogo meu corpo para frente enquanto com a perna cujo me apoiava empurra a cadeira que cai. Eu escorrego no vazio que ficou entre a cadeira e o chão até ser agarrada pelo pescoço. Estou suspensa agora e abraçada. Sinto um aperto em todo o corpo, que me comprime em um estado de felicidade e acefalia. Me debato, não por arrependimento, mas para tornar a cena mais emocionante e visceral. Premência de me salvar não havia, mas me salvei. Depois de dois minutos de agitação cenográfica acompanhada novamente pelo som do piano - desta vez mais acelerado e grave - cedo à morte e aceito minha escolha. O filme vai escurecendo gradualmente sobre minha imagem intacta em um fade out até não se ver mais nada além da ultima frase que antecederia o "Fim", "Agora descanso de meus pensamentos mais sórdidos sobre meus pensamentos que nunca tive respostas".
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