domingo, 1 de março de 2015

Comparações I

É como escrever na tentativa de se salvar. Todo escritor no fundo brinca de ser um pouco Deus. Não se sentem completo sendo apenas um humano com limitações comuns. Criam cidades, mundos, situações. Dão vida as pessoas, matam pessoas, criam suas regras e punem quem ele as faz desobedecerem. Escritor não sabe o que é livre arbítrio, controla toda sua trama com linhas finas de marionetes e quando cansado de tudo, costura um drama e mata todos. Escritor é fraco, frágil, covarde, porém, inteligente. Divorciar-se hoje de seu cônjuge, amanhã faz um livro colocando-a como personagem principal, fazendo com que todos a detestem, mata-a no fim. Briga com o chefe, e lá está ele, figurado e bem escondido com uma doença mortal sem cura em um novo livro. Demora meia hora na fila do banco, e a cidade maquiada com outro nome desaparece do mapa subitamente com uma bomba nuclear em sua cabeça para uma nova história. Escritor tem que se exilar no fundo de si para trazer à superfície o montante perfeito para o enredo. Poesia de quem sofre deveras dores é a poesia mais epifânica que há. O dom de escrever, é na verdade uma praga que pesa e perdura sobre as costas. Se não houvessem matado Jesus, ele teria escrito grande parte da bíblia, se é que ele não tenha dado seus palpites na construção. O que resta é tentar traduzir com palavras, o sentimento da ferida interna em carne viva que é dado para quem escreve. É como ser a solidão de um escritor, que na penumbra da noite, a única companhia que tem é o barulho da máquina de escrever e o cigarro quase ao fim.

Carlos Ant.

Não fico mudo

Eu aprendi a falar o que me vem, não separo mais em ordem cronológica ou pondero o que é de utilidade ou não, simplesmente digo. As vezes me dizem que sou prolixo ou que meus argumentos não tem base e não passam de falácias, ou ainda me sugerem que leia "A arte de ter razão" de Arthur Schopenhauer. É como dívida mal paga, sabe? Guardar para si provoca aquela sensação de que deverá nos próximos meses separar uma quantia do árduo salário para destinar a uma conta infinita, e as prestações exponencialmente crescente faz você ser obrigado a remunerar, também, os juros que costumam ser, na maioria das vezes, maiores que o valor do débito inicial. É uma matemática não muito complexa, mas também, não muito lógica. Absterei de explicar matemática, dado que, não sou a pessoa mais indicada para isto. Carrego comigo a crença que quando deixamos de falar algo, o que não foi dito, ao longo prazo, somatiza-se em enfermidades. O peso do que não foi proferido valerá a gravidade da doença. Conheço pessoas que sofrem de pedras nos rins, fruto de palavras não ditas. Quanta coisa se engole a seco pensando na melhor maneira de falar algo que, só o que poderia valer como sensato seria a ideia de não pensar em nada para se expurgar. A vida é simples Antônio. Cabe a nós entender que devemos levar porrada o tempo inteiro, afinal, nenhuma pedra fica bem posicionada em um ladrilho, se não receber algumas porradas.

Vamos lá! No três todos bebendo a cachaça do copo, expondo suas feridas e cometendo haraquiri. Um, dois ... Droga! Queimei a largada. Não pude expor minhas mágoas nem anestesiar meu corpo com álcool. Me matei antes. Existem variações de hipóteses e estas por sua vez são louváveis. Entretanto, não cabe aqui mostrá-las. Talvez pelo medo inconsciente de expor feridas. Não faço o tipo de soldado orgulhoso que volta sorrindo da guerra, mutilado. Tenho que trabalhar minuciosamente meu parabolismo, distanciar personagens atribuindo características que não possuo, atitudes que nunca tomaria. Escrever se tornou uma forma de confidenciar meus ferimentos através do outro; através de pseudônimos e ficção kafkiana surreal, para disseminar uma frase ou outra que eu precisava dizer e não disse. Eu escrevo porque meu processo de pensar é lento, requer uma lapidação do que será dito. Sofro de Síndrome do delay; uma pessoa me joga uma pedra hoje e só depois de semanas sentirei a dor, então sento, e escrevo. O método que busco para responder ao ataque é este, depois de entender a dor do ataque, sento e escrevo.

É como quando se fuma o primeiro cigarro, apenas um, para experimentar. Ao tragar, sugamos a fumaça recém filtrada e esperamos, além de matar a ânsia da atitude, soprar junto a ela alguns demônios hospedeiros internos. Em vão é tal rés tentativa. O que causará nada além da tosse, do gosto de nicotina na saliva e o arrependimento de não ter fumado, em seguida, um segundo. A necessidade incessante de expurgar demônios que não saem é tolice. Coube a mim soprar essa fumaça das palavras bem posicionadas enquanto aceito que sou mesmo vil. Quem não é vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza, neste largo mundo? Ah, Fernando Pessoa, também estou farto de semideuses!


Carlos Ant.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Fome de sede

num chove no sertão
já perdemo os gado
tamo perdeno as plantação
e os cachorro só os osso
nos olham com os ôlho
de remorso

a asa branca bateu asa
o carcará voou sem cantá
ficou a tamanha desgraça
daquilo que eu estou a falá

minha súplica num é auvida
e é bem certo que chuva num vem
a esperança todo dia um tiquim morre
abrino então a firida
dessa vida de trilho de trem

me de atenção um minuto,
peço a deus onde ele tivé
me mande ao meno uma gôta
só um poquim, uma bicota
pra mode eu fazê o café

eu ate tenho bastante fé
apesá de num parecê
criei minhas duas fia
as mocinha, cê pode vê
e os três cabôco tão na roça
de juelho no chão
pra mode chuvê

se achegue, veja aqui minha mão
olhe os calo da inxada, moço
olhe meu buxo, minhas custela
e o próximo almoço?
num tem nem previsão

e esse sol que parece um agôro
não tem pena de ninguem não
si é capais de rachá o côro
imagina o que faz no chão!

meu discanso é a rede
depois de um dia de cão
peço a deus que me mate a sede
e que caia a bendita chuva
nesse esquecido sertão.

Carlos A.

Prolixidades

Após ler inúmeros pensamentos existenciais chego a conclusão que é perturbador a condição posta de ser. Nego qualquer desejo involuntário, que irrefutavelmente possa a vir abalar meu novo estado de não-ser; para permanecer assim em minha nova posição posta por mim mesmo.

Seria tudo mais simples se não houvesse a necessidade de ter que ser, estimulado desde a infância para com os pupilos em formação de vida. A cobrança em estar sendo o que é, mesmo quando sem a mínima vontade, tira-me o sono. A recusa em ser trás consigo tantos outros levantamentos que acarretam assim em mais pensamentos, e que me causa ainda mais insônia.

Vivendo no modo Anti-ser: não se há identidade (sem nome, sem sexo, sem religião, e etc);
dispensa-se o tempo (acarretando na não necessidade de se ter uma idade, ou de viver baseado em horas/dias/meses/anos); a insignificância do espaço (logo, não se mora, não se veio ou vai para lugar algum).
Não ser está diretamente ligado a não ter - este ultimo nem sempre voltado à algo material. Não ser é não pensar segundo Descartes, o que coloca por terra a meu estado condicionado, pois enquanto decorro tais objeções estou pensando, e logo, sou/existo.

As contradições logo aparecem e a impossibilidade de não-ser vem com elas. Poderia o fato de ser ser a praga rogada em nossos antepassados comedores do fruto proibido? Onde após a descoberta da divindade maior sobre o acontecimento oriundo da desobediência acarretou na sabedoria; e com ela automaticamente na premência inegável de "tornar-se"? Seria o paraíso de todas as religiões simplesmente o fato de alcançar este estado de espirito¹? Será se essa busca efêmera não seria uma utopia surreal? Enquanto faço essas indagações pertinentes, já não demonstro visivelmente que fugi da minha exigência clara exposta na premissa deste raciocínio? Ao fim, concluo que tenho que continuar sendo. Afastemos então para o lado a pedra do "To be or not to be, that is the question" e contentemos com a resposta obvia.

1. De não ser.

Carlos A.
Transforma
toda verme em ascensão
em inspiração
toda propensão à depressão
no antônimo da solidão
todo pensamento solto
em poesia
todo sussurro revolto
em acalanto para o dia.

Carlos A.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

imatura solidão

sou escravizado por querer demais
as vezes me pego a perguntar: o que eu tenho?
nem sorte, nem azar, nem felicidade, nem vida
não sou possuidor de nada
nem de mim, nem de você
suplico ajuda em sussurros
premeditadamente não sou ouvido

planejo minha ida mais de sete vezes
coragem já não me resta
mas essa vontade é pertinente
então nessa minha velha cama
que em seus ombros me deleitei
choro minha solidão e conto os meus anseios 
finjo não me importar, por ter derramado café
em metade dos meus escritos

ensaio a minha partida
dormindo mais de um dia
acordo e percebo que não fui
com um sorriso imperceptível 
fecho meus olhos, vou embora
viver feliz com o meu subconsciente
no qual eu posso brincar de felicidade.

Carlos A.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Reencarnação cobiçada

Queria ter a certeza de um gato
de que possui sete vidas
poderia assim livrar-me do fardo
para contar aventuras vividas

Ah, quanta inveja tenho dos gatos
São todos donos de mundos vastos
de noite ganham a rua
improvisam canções para a lua

Recebem carinho da dona
na preguiça do dia pegar carona
comer patê no prato de porcelana
brigar por resto de peixe na lama

Buscar nos telhados amor
e confusão seja com quem for
não dar explicações para a antipatia
essa era a vida que queria.


Carlos A.