domingo, 14 de dezembro de 2014

estrabismo, miopia, astigmatismo
mas antes mil problemas de visão
que apenas um no coração.

em vão

Eu nunca te escrevi um poema
não havia rima para o teu nome
minhas pobres metáforas de ateu
e teu soneto nunca escrito me consome

Agora que tudo acabou te eternizo
a minha saudade te escreve na noite
mas são todos póstumos do que foi vivido
e poemas póstumos não ressuscita amor vencido.


Carlos A.

calça jeans

Antes fosse para tirar depois de longos dias estafantes
mas ao invés, visto às seis da manhã daquelas segundas irritantes
que te obrigam a levantar para compromissos irrelevantes
refiro-me a escola que sempre fui, mas relutante

Aquele jeans rasgado desbotado, encardido
com aspecto meio rock and roll meio indefinido
que depois de semanas sem lavá-lo fica endurecido
e o cheiro de jeans sujo já não passa despercebido

Ele vinha até o meio das nádegas, caído
parecia um pouco hippie, um pouco perdido
totalmente diferente do daquele garoto metido
pelo tecido que já se desfazia de vencido

Por fim do colegial enterrei meu velho amigo
escolhi muito bem seu local de jazigo
recobri com terra seu novo corpo de abrigo
agora com um velho e sujo short sigo.


Carlos A.

histórias de cólera

Voltei, a fila estava gigantesca e eu detesto esperar em filas, como detesto também ter que explicar o que estava fazendo. Acredito piamente que faço parte de uma nova espécie de seres humanos com psicologia diferentes dos demais, como uma doença congênita não visível e com diagnóstico impossível, algo neurológico. Ficou latente esta neurose até ocorrer um fato que desencadeou toda a bola de neve que agora vou compartilhar com todos vocês.

Tinha eu quatro ou cinco anos, não lembro a idade, mas do fato lembro bem. Estudava em uma escola que se chamava Centrinho - o que vendo hoje, pareceria ridículo por estar localizado no subúrbio desta pequena cidade - para educação infantil. A parte de cima do fardamento obrigatório era uma regata com um tecido azul envolvendo a parte do ombro e o resto era um amarelo bem forte (ou o inverso, por não ter foto da época, minha memória fotográfica pode estar querendo me sabotar). A parte inferior era um calção de cor unicamente azul com a logo da frente de uma locomotiva sorridente em ambos.

Quando tento puxar na memoria e reviver a cena para ser o mais fiel aos detalhes possíveis, não consigo lembrar de algumas coisas, o que é natural, tentarei então fugir das armadilhas tendenciosas da fantasia com o intuito de se fazer real. Concluo que a sala de aula cujo estava era exatamente a primeira que se via para quem chega, do lado direito; tendo que atravessar antes um pequeno pátio de chão cimentado e um portão preto com ferrugens. Em frente a sala que nos reuníamos para fazer uso de cantigas didáticas infantis - puxando o tapete da consciência para usar algo favorável aqui, afirmo que não fazíamos nada além de cantar, pintar e brincar com joguinhos sociais - do lado esquerdo, localizava-se a sala da diretora do Centrinho do ano de 1998 - 1999.

Certa vez, esta senhora diretora de nome Maria - a princípio pode parecer um nome comum, destes que escritores usam para proteger a imagem de alguém físico real, mas este não tem o principio de proteger ninguém com codinomes, de antemão, pelo contrário. Maria, e se ainda soubesse o sobrenome explanava aqui nesta espécie de desabafo catártico, mesmo que ainda ache louvável me prender ao nome depois de anos. Entra na sala interrompendo uma das canções - corte lacaniano - falando algo alto e em bom som, que não lembro ao certo se havia importância, para a turma de criança que éramos todos; mas lembro bem que a interrompi gritando "Olha a chuva!?" - corte lacaniano II. O que eu fiz nada mais foi que reproduzir um jogo que havia aprendido na semana com a professora; onde qualquer um gritaria a frase exclamada acima, com o resultado de todos gritarem em resposta "ÊÊÊH" levando à cabeça qualquer objeto afim de proteger-se da suposta chuva. Foi o que eu fiz, e foi o que fizerem. Em resposta à resposta, Maria voltou-se para mim e me carregou pela orelha direita até a sala que todos já devem saber onde fica. Em resposta a todas as respostas, todos riram de mim.

Poderia eu ter simplesmente superado, reproduzindo o que todos me aconselham quando falo do acontecido, mas nosso cérebro tende a guardar involuntariamente somente o que nos afeta emocionalmente ou o que recorremos a ele com mais frequência. Por mais vezes que tente não recorrer ou afirmar que não me marcou emocionalmente, este fato é incontornável. Queria colocar aqui o que foi me dito quando fui levado para a sala que todos tinham medo, entretanto não consigo lembrar; poderia eu inventar um possível diálogo emocionante mas isto não tem nenhuma tendência a ser manipulável ou ficcional.

A liberdade em falar em público e de me posicionar socialmente, induzido na primeira infância através de jogos de interatividade com o meio me foi castrado com a postura arbitrária de Maria. Maria, diretora que retalhou minha moral e me agrediu sem que houvesse nenhuma forma de defesa. Maria, diretora que me acovardou e me ensinou da pior maneira a "colocar o rabo entre as pernas" quando perante aos meus superiores. Maria, uma mulher que duvido que mereça viver e amar como outra qualquer do planeta. Maria, que tem agora por este documento/escarro a minha permissão de abrir uma ação judicial contra mim pelo que lhe achar conveniente. Maria, que quando vi certa vez despretensiosamente aquele rosto hoje enrugado pelo tempo cruel não me contive em indagar o motivo do fato, se avergonhou e culpou sua irmã quase idêntica Fátima. Maria, diretora da escola infantil Centrinho no único ano que estudei, entre 1998/1999 de Sobral, CE.

Carlos A.

domingo, 30 de novembro de 2014

We are the champions?

Lá ia eu caminhando pé-ante-pé com toda minha atenção na sacola que carregava com sete ovos da mercearia. Como pode ser tão frágeis estes que somam mais que a idade que tenho? - me perguntava. Estava ciente que se quebrasse um deles, mesmo que sem a mínima intenção, sofreria retalhamento ao chegar em casa. Sete pessoas para sete ovos. A falta de um deles poderia me custar o almoço. E eu andava, com toda a calma do mundo. Minha ingenuidade de filho e irmão mais novo me permitia viajar, e eu viajava em mim. Rezava para que nenhum dos sete chocassem ali na sacola e no meio do caminho. "Meu Deus, olha para mim, protege meus passos e nosso almoço. Gosto de pintinhos, mas gosto mais de não sentir fome. Amem!".
Quando me concentrava além do normal no peso que tinha em minhas mãos, e meus passos descompassavam e eu pisava em falso; podia ver e ouvir - além da guilhotina, forca e bigorna sobre minha cabeça - os ovos se colidirem. O barulho do choque das cascas mostrava a mim o quanto era delicado o conteúdo e eu sentia medo. Medo de não comer, medo de não concluir corretamente a primeira função árdua me concebida, medo de não ter dado o máximo de mim. Pensei em agarrá-los contra o peito, mas achei arriscado demais e poderia sujar-me todo caso quebrassem. Afinal de contas, a vida é meio assim, uma fina casca de ovo, onde somos incumbidos de não quebrá-lo.
Cheguei em casa vitorioso, peito inflado e cantarolando mentalmente errada a unica música que sabia em inglês "We are the champions". Levei rapidamente para minha mãe que já esperava na cozinha com o propósito de me livrar do fardo. Esperei os agradecimentos, congratulações e a pompa de meu primeiro ato não infantil concluído como o esperado em vão. Mas me esperavam com uma forca, uma guilhotina e uma bigorna suspensa. Me açoitaram, me retalharam, atiraram os ovos sobre meu peito e ninguém almoçou aquele dia. Hoje quando eu penso se algum dia já chorei, lembro deste dia com a conclusão invicta de que nunca chorei mais que neste dia. Porque, afinal de contas, a vida é mesmo assim, você pode fazer o seu impossível, chegar ao seu limite, mas sempre lhe jugarão pelo que você não fez, ou pelo erro que poderia ser irrelevante. Neste dia dos ovos por exemplo, a demora de dez minutos a mais que o cogitado deixaram minha família furiosa, até passou despercebido que eu havia esquecido o troco.

Carlos A.

sábado, 22 de novembro de 2014

Manias e outras pragas

Eu deveria de fato entrar para o Guinness Book por ser a pessoa mais possuidora de manias e complexidades do planeta. Acho pertinente como influências na fase infantil podem reverberar pelo resto da vida, muitas das que tenho hoje é proveniente destas. Quando muito criança - no inicio de minha alfabetização - meus pais sem muita paciência, pegavam em minha mão para acelerar as atividades; o que acarretou em uma maneira diferente como eu pego em lápis e caneta - deixo um espaço gigantesco entre o indicador e o restante dos dedos. Tenho problemas sérios com promessas. Faço promessas para tudo e estou em débito com todos os santos que conheço - aproveito para prometer aqui que não farei mais promessas, principalmente para o inicio deste ano que vem. Praga em minha cabeça em estar o tempo todo criando diálogos sórdidos e improváveis, diversas vezes faço o papel do acusador e acusado que brigam em busca da razão - como jogar xadrez sozinho. Tenho mania em achar que tenho várias doenças, devo ser hipocondríaco. O fato de eu achar que sofro de hipocondria, já não me faz um hipocondríaco? Paradoxal eu sei... Mania em perguntar o signo das pessoas mesmo estando totalmente por fora de "astronomia" (foi totalmente proposital para demonstrar o meu nível de desconhecimento). De discutir horas sobre filmes que nunca vi e que sem tempo nunca verei. Mania em achar que nunca tenho tempo e praga em escrever o tempo todo. Praga em não conseguir terminar nada que começo. Mania em dizer que vou embora, praga em voltar na primeira esquina. Mania em alegar que sou esquecido para encobrir alguma falha e praga em nunca esquecer de fato nada. Mania em mascar chicletes imaginários quando estou com tédio e praga em sempre morder a lateral da língua quando masco chicletes - mesmo que imaginários. Manias de "duas colheres de açúcar, por favor!" e praga de "Ainda sinto sua falta, e tudo o que escrevo tem você em alguma entrelinha". Mania em não conseguir falar em público e praga maldita em querer ser Drummond.

Carlos Drummond Antônio

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

borboleta no estômago pode não ser o que aparenta

     Surge ela de uma lagarta exterior que nós permitimos - diversas vezes inconsciente - adentrar em nossas vidas. Ela se aconchega em nossa pele, com calma malemolência, dissimulada. Sem que percebamos coloca seus ovos dentro de uma camada profunda em nossa carne. Não percebemos o que de fato aconteceu até que vejamos centenas de outras lagartas brotar de nosso corpo; desesperados tentamos sem sucesso nos livrarmos, mas são muitas, e parecem surgir em escala aritmética. Caem de nossos ouvidos, eclode de nosso peito, aparecem gradualmente sobre pernas e braços e o que nos resta se não aceitar a condição? Por sorte elas desaparecem, uma a uma, lagarta-por-lagarta. Mas sempre fica, além das marcas na pele, apenas uma - a hospedeira. Esta que irá nos acompanhar ali na alma, nem dentro e nem fora, sobre.
     Sendo bem alimentada por paranoias e tristeza ela cresce forte, viril. Não demora para que ela se enclausure  em seu casulo para a grande metamorfose. Depois que a lagarta vira borboleta, pronto! Sentimos ela passear internamente, ela se esparrama, faz festa e dita as regras. Com o passar do tempo e o costume adquirido nos adaptamos com sua presença. Batizamo-nos-a com apelidos parecidos com o que damos aos pupilos da família  Dê, deprê e ainda deprezinha; uma forma de camuflar o estrago que acontece conosco ou apenas uma maneira de demonstrar que não é grave o que estamos sem capacidade mental para explicar.
     Quando ela se dana sentimos na pele o "Efeito Borboleta", bate ela suas asas em nossa cabeça e o coração entra em cataclismo, inverso idem. Quantas vezes uma borboleta bate as asas por minuto? Nossa sorte é que não é um beija-flor, já imaginou a teoria do caos "Efeito Beija-flor"?
Ela é grande, sinuosa, com negras asas. A um míope severo, imaginaria estar vendo uma vespa gigante qualquer, mas somente pessoas com olhos treinados e quem já conviveu com essa espécie não tão rara, reconhece de longe do que se trata.

Carlos A.