sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Promessa pra santo

Certa vez um garoto apaixonado, pediu para o santo mais improvável para que o ajudasse no relacionamento que possivelmente viria a ter com a linda garota, São Longuinho. Não acreditou que seria concedido a ele tal pedido, pela improbabilidade e pela descrença que o jovem rapaz depositara em seu apelo. Mas estranhamente, Seu Longuinho o ajudara. O relacionamento foi pautado na ideia de que uma divindade religiosa o protegeria. Quantos pedidos depois ele fez? Passou a acreditar piamente no santo, todo pedido era-lhe concedido, e quanto maior fosse, mais pulos ele prometia em troca. Foram tantas súplicas atendidas e tantas promessas de pulos que cresciam exponencialmente, que o moleque já estava em débito com o santo, tanto que para pagar-lhe a dívida, deveria pular uns dois anos e meio ininterruptamente. O relacionamento, fruto do primeiro pedido, acabou de maneira um tanto trágica, logo achou que fora praga do São Longuinho! Agarrou-se rapidamente a outro santo, prometendo que se este negociasse com o outro a diminuir alguns pulos, ele prometia não fazer mais promessas a santo nenhum!

C.A.

sábado, 23 de agosto de 2014

Mais uma crônica de amor

Amar é, sem sombra de interpretações mal esclarecidas, pessoal. Livre de esteriótipos ou situações limítrofes, ama-se ou não ama-se o que tiver no meio termo disto é paixão ou fixação. Não existe o significado certo de amor, não há uma base, não tem o conceito/encaixe. Tudo que já foi escrito sobre ele ou ainda será, é uma mera concepção particular - este texto inclusive é uma das tantas várias vastas ideias, prólogos, monólogos que existem no mundo sobre este sentimento, e está longe de se fazer o mais correto de todos.
A tradução no dicionário, entretanto, não é baseado no real significado da palavra, mas na vaga concepção do que uma pessoa crê que representa, portanto, nunca acredite completamente no dicionário. Uns amam como a tradução, outros amam além do que se é descrito tal sentimento, de um modo inexplicável que nenhuma palavra já criada seria capaz de relatar. Amor não se explica, se sente. É perca de tempo explicar para um ateu ou um cético a existência de deus por exemplo, a mesma dificuldade que tenho de tentar expor minha visão.
Não é verdade o que falam sobre amor, amor não machuca, não destrói, não faz o ser amado chorar, não chacoalha a cabeça do outro com ideias perversas, nem faz dele coadjuvante no ato principal.
As pessoas buscam incessantemente um sentido para a vida, um estalo, uma oportunidade de gritar "EUREKA" e sair correndo pelado (como fez Arquimedes), mas não é tão simples, obvio ou lógico como as ciências exatas, requer um estado de espírito Buda. A pior parte disto tudo é quando acredita-se que encontrou o amor verdadeiro, a pessoa que você tem a plena certeza que compartilhará toda a sua significância, e esta mesma, os decepciona. O que fazer?
A) Gritar "Eureka" pelado achando que encontrou o significado de amor, e que ele não existe?
B) Cair na depressão, desenvolve arritmia cardíaca e falta de ar, raspar a cabeça e não pensar em nada além de suicídio?
C) Insistir na possibilidade de que tudo não passou de um mal entendido seu. Usando sua forte dedução faz a sua conversação e a do outro afim de poupa-lo do que você acredita que ele quer lhe dizer, mas que por falta de coragem não diz e que você por não querer ouvir da boca dele, acaba dizendo para si mesmo. Vê que pela reação não esperada você possivelmente tem razão, mas mesmo assim não acredita no que você mesmo disse. Aproveita a dedução forte que tem e cria a desculpa e a reconciliação do outro, mesmo sabendo que isso possa não ser o que ele quer exatamente?
Observações da escolha:
Se você escolheu a letra A, logo você não tem exatamente nada em sua cabeça. Apesar de possivelmente estar correto, o que as pessoas vão fazer é apedrejá-lo pela sua descoberta. O mundo apesar de não parecer, ainda acredita no amor.
Já você que escolheu a letra B, o que eu posso lhe dizer é que existe vida após o amor. Basta seguir firme, você ainda dará muitas risadas da situação, enquanto não, ainda vai piorar bastante. Este pensamento ainda vai lhe acompanhar por um tempo. A arritmia te dará dores desconfortabilíssimas e a falta de ar não te deixará dormir. (Não querendo ser pessimista, mas este texto não tem fins de auto ajuda)
E se você escolheu a letra C, então pensamos iguais, pegue um remo entre no meu barco e vamos navegar. Mas, fazer monólogo com as possíveis falas do outro não é tão justo com você, creio que isso deve-se a baixa auto estima. Você não é tão dedutivo assim! Uma coisa que aprendi da pior maneira é que "7+5 é igual a 12, mas 3+9 também e existem muitas outras maneiras obtendo 12 na casa resposta, por isso, não existe apenas um modo de se resolver uma situação" ou no caso, não existe apenas uma maneira como as coisas poderiam ter ocorrido, a infinidade está ai e Sherlock Holmes é ficção! Você não tem exatamente nada em sua cabeça, e ainda vai piorar bastante.
Por fim, se eu pudesse dar uma dica sobre como agir, um conselho grátis baseado na minha experiencia errante seria, não percamos mais tempo tentando descobrir o que é amor, se está sendo amado, se é só paixão... Porque enquanto pensamos nisso, enquanto escrevemos textos e mais textos sobre amor, o amor passa. O amor está em tudo, não devemos o personificar em uma pessoa. Devemos sim aproveitar o amor de tudo, porque tudo passa e quando nos damos conta, não aproveitamos exatamente nada, por achar que o amor é somente a necessidade de se ter alguém.

C.A.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Irene chegou no céu sem fazer alarde
acreditou até que já ia tarde
caminhou até a portaria
avistou São Pedro adornado
deu um abraço apertado
em quem ela queria.

C.A.

(Baseado na poesia de "Irene no Céu - Manuel Bandeira")


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Para um Jornal de Sum Paulo

sou nodestino, viuvo, anarfabeto e pai de duas fias
mas garanto que num trato nenhuma com mais primazia
escrevo esta carta por meio de um amigo de vivença longa
que com suas mãos calejadas da enxada e tremulas da idade
já não se alembra como se apega no lápis
e já vai se esqueceno onde se acentua
vai mim descurpano os erros então

queria contá a você minha história sufrida aqui do sertão
apois num vô mim arrudiá
tenho no espinhaço mais de quarenta
e na alma mais buraco que nesse chão o sol pode rachá

aqui as pessoas morre de tanta tormenta
numa delas perdi mia muié, eu mesmo fiz o caxão
os dotôres disserum tuberculose que era
aqui tem pessoa que da vida milagres espera

nessas esperas por chuva perdi meu gado
nessas esperas por gado perdi meu pão
nessas esperas por pão perdi meu deus
nessas esperas por deus perdi minha fé
e a saudadi de mias fias, pois perdi não

os cabas de Sum Paulo chegarum pressas banda
mim disseru que eram por demais formosas
perguntaram se podiam levar pruma tal de holanda
pois erum de comunidades religiosas
e que num iam passá mais fome

acreditei na hora sem pensá duas veiz
pois prometerum mandá carta todo meis
guardei na lembrança o olhar delas indo
bem longe no caminho e se diminuino
fiz o melhor pra elas pensê

a carta do meis chegô, feliz por demais abri
um amigo estudado leu alto pra mim ouvi
"meu pai, estamos passando muito bem aqui,
quero que fiques bem, não estamos sozinhas,
é o que eu tenho a lhe pedir
um grande beijo de suas filhinhas"

Maria Rita, e Morena Clara
quinze e dezesseis cada
passo os dias a chorar
pedindo pros santos,
pro mal eles as livrar

Apois chegou o outro meis e nada de respostas
o terceiro, quarto e o quinto carreguei em mias costas
delas só tenho uma foto e essa saudadi imensa
que sem carestia meu coração atormenta

mas uma ideia tida por um amigo, meus dias salvô
vô escrever para um jornal de Sum Paulo pensô
arrume uma lápis e um papel dipressa
vô tentar trazê suas fias, disse num tom de promessa

pois lápis num tinha, papel me fartava
viajar protra cidade comprar era o que restava
fui de pé num sol de rachá a cuca
prometendo quando elas voltasse não sairiam mais nunca
mesmo que passando a fome do cão
de mias fias não abriria mais mão

chegando em casa chamei meu cumpadi
ele começou a escrevê o que agora se é lido
esse pedido de um pobre coitado, sufrido
que é pisado pela enorme saudadi

se acaso vocês visse mias fias porai
peçam pra elas se lembrarem do que deixaram por aqui
me arrependi por demais de largar delas pro mundo
agora nem durmo a noite por causa desse sentimento imundo

fiquei sabeno de umas pessoas letradas
que tem pessoas marvadas
que acolhem crianças
pra fazer umas danças
em casas de prostituição
pois quero mias fias agora
pois chorar, aguento mais não!

C.A.

domingo, 15 de junho de 2014

Complexo existencial (baseada no paradoxo que é a vida)

não existo aqui, nem além

acho que não estou

devo ser o esquecimento

da vida que passou

e algum anjo disse amém

C.A.

Rodrigo e os incas - Parte I

  Sentado aqui nesse quarto sem vida, onde o que me alimenta é a pequena fresta da janela, e as sobras dos restos de comida, que vem me deixar Maria às noites de quinta. Maria é minha babá, ou foi um dia, que por piedade de me ver assim, continua a me alimenta de comida e de tinta.
  Meu nome é Rodrigo e resolvi me isolar, Deus sabe porque, e talvez você também saiba.
Sou pintor, poeta e para os que gostam de falar dos outros, louco também. Apesar de não achar que a loucura seja assim tão ruim, louco é quem perde tempo. Eu não perco!
  A princípio, Maria veio ontem me deixar uma caixa grande, dentro havia um recipiente com comida que devo economizar para a semana toda, algumas cores de tinta que já havia acabado, e um caderno, cujo mais me agradou. Sua capa era a gravura de um gato preto, não sei quantas folhas tem, não sei qual sua marca, nem sei se é um caderno mesmo, ainda não tive coragem de abri-lo. Os olhos do felino são horrendos, e o miado dele é de quem está com fome, temo que ele coma minha comida. Posso ouvi-lo mesmo tendo fechado a caixa e posto em cima uma tela ainda inacabada. Acho que devo estar delirando, minha mãe disse que tenho um sério problema, deve ser insônia. Preciso dormir.
                                                                                   -
  Ela sempre dizia que tenho um problema, manias, muitas manias. Acabei de retroceder 24 horas no relógio quando acordei a pouco. Todas as tardes faço isso, quase que por impulso. Uma rotina baseada em acordar 14:00, levantar, pegar o despertador atrasar em 1 dia, sentar e começar a escrever nessa máquina velha, onde todas as quintas Maria vem e recolhe todas os escritos. Maria é minha tia e irmã de minha mãe, que esqueci seu nome de tanto tempo que não a vejo.
O meu terapeuta Gabriel me aconselhou que escrevesse sobre mim, e não criar estórias, enfatizando o "E" acompanhado dos dedos indicadores e médios unidos das duas mãos descendo e subindo lentamente até o fim da palavra, ele é um bom terapeuta, me visita sempre que pode. Então Maria em uma dessas quintas trouxe-me essa máquina que era de meu pai, o ocupado Sr. Gabriel.
Uma de muitas manias adquirida com o tempo foi a do esquecimento, fui contemplado por Deus por não lembrar de muitas coisas. Pois a mim são largas as possibilidades imaginárias de como vim parar aqui, de quem sou filho, de quem sou pai, de quem acredito. Isso é de uma poesia particular e única que admiro em mim e que não desprende de minha pele. Levo uma boa vida assim.
Para meus leitores que são exigente de detalhes minuciosos, aviso-lhes que irei discorrer longas falacias quando desnecessário, e quando em situações de suma importância para a certeza de um pensamento, irei faltar de tais detalhes essenciais. Infelizmente as coisas se confundem em minha cabeça, e não quero fantasiar nada aqui. O meu tempo é diferente do tempo dos incos - nomeei assim os sem criatividades mentais, julgadores, e os que não acompanham meu pensamento - preciso de vossa compreensão, irei assim aos poucos desvendar-me, me mostrarei sem pressa, e espero me conhecer simultaneamente com você que não sabe quem eu sou. Se você está lendo isto, então isto é para você, e se discordar, de nada adianta, pois eu escrevo para todos aqueles que leem, e se você começou, então eu estou escrevendo unicamente para você. Tome então conhecimento de que eu não quero que continue, mas se ainda insistir, a culpa é totalmente sua.
Arrisco ainda esbravejar um grito inerte, daqueles que só se ouve quem tem ouvido atento, apurado, quase que treinado para tais ocasiões. Um grito que não tem pretensão de se fazer audível, tampouco tem premências catastróficas. Categorizaria-o como grunhido se um dia for necessário, pois sou porco, sou vil, ignóbil, asqueroso, não digno de pena dos mais sensíveis, muito menos digno de retalhamento dos menos calmos, mas digno de compreensão sobrenatural. Permita-me então contar minha história torta em alguns momentos, mas o tempo inteiro reta perante as minhas ideologias, que como já deveras ter percebido são de muita imaginação.
Tenho tido corriqueiramente um sonho estranho, onde eu era o sol e iluminava todos os incos do mundo, era o deus sol. Ajoelhavam-se para mim, no sonho, e me clamavam por luz. Sou um ser iluminado e eles não são, pois vivem para achar respostas para tudo, buscando conhecimento, dinheiro. Não percebem porém que a verdadeira luz é proveniente da ignorância e da imaginação. Um dia eles deixarão de ser incos quando perceber que a verdade absoluta não passa de uma utopia do mundo são.

Herético

quero adentrar em todos os teus orifícios
fazer do teu corpo o meu vício
afagar meus desejos mais insanos
transpirar até transparecer ufano

quero subentender a subversão
plantar a heresia sem pretensão
e quando não tiveres mais proveito
tudo entre nós estará desfeito

C.A.