sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vida de passarinho

para ser passarinho
basta chegar de mansinho
vestir-se de pena
compaixão e linho

deve-se aprender:
a caçar minhocas
fazer sua toca
esconder-se na loca

fugir de caçador
gorjear como lá
migrar para longe
filhotes chocar

e quando encosta
mais duras dores
pousar no ninho
e inspira autores

C.A.
no inicio tudo era palavra
da palavras fez-se o verbo
do verbo fez-se a locução
que deu-se a loucura
da loucura nasceu o poeta
que mostra o que mente
e esconde o que deveras sente.

C.A.

Garota de Aluguel

todos os dias bate-lhe
sensação devaneada
enquanto sobe as escadas
e não delimita cada

Maria agora é Madalena
fugiu de sua casa na roça
por que fazer cena?
não queria mais ser moça!

fecha a porta do quarto
disse o senhor arrumado
não quero ser visto
nem mesmo por cristo

agora és minha amante
temos cinco minutos
tire esses trapos, ande!
mostre seus atributos

alojou-se entre as nádegas
fez dela sua hospedeira
acabou com suas pregas
imundou a obreira

a carniça exposta à mesa
não espera nenhum afago
observa de longe o estrago
e o sobejo de sua presa

descansa no leito do harém
seu corpo aos poucos ceifa
enquanto o mantra recita
"não sou escrava de ninguém"

C.A.

domingo, 18 de maio de 2014

Poesia para ninguém I

o poeta mendigo
alfabetizou-se na rua
escrevia versos tímidos
com um giz no chão
largava em seu rumo
sempre que podia
um pouco de sua solidão

e os transeuntes dispersos
que correm atrasados
não leram o jornal
não assistiram ao noticiário
nem sequer viram
o que se tinha passado

por ali todos trafegaram
a moça com o bebê
o vigia da obra atrasada
as freiras para capela
a bela senhora adornada
mas ninguém se quer notara
que vazia estava a calçada

mas sempre tem alguém
que por força do destino
não acorda assim muito bem
e foi aquele pequeno menino
cabisbaixo pela sorte
leu no chão uma poesia
no qual falava de morte

"nessa vida tristonha
de um mundo sem porta
mendigo não morre
descansa no céu"

Carlos A.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Distancia impiedosa

E é impossível negar, sempre lembro de como nossas coxas se enroscavam quando tocava aquele jazz, tua carne desnuda à mostra, o toque da ponta de teus dedos passeando sem rumo sobre meus cabelos e esquecendo-se em minha nuca, tão proposital quanto os olhos de fome que fazia quando sobre à penumbra me despia, tua voz rouca propagava-se tão tímida e lenta que hesitava se de veraz queria fazer-se ouvida, o aroma do teu sexo que exalava o quão me queria mais perto, quase que dentro, ou se através. O acalanto que teu coração fazia quando descansava minha cabeça em teus seios, ah teus seios! A maneira como demonstrava satisfação quebrando o silêncio com súbitos suspiros, tuas unhas quando me marcava a pele e teus dentes quando me marcava a alma. Hoje quando devaneio em noites insones, sobre o vazio massacrante de minha cama, refaço as notas em minha mente daquele jazz que, me maltrata hoje tanto quanto um dia já preencheu uma vida inteira, e que hoje já não passa de súbitas recordações involuntárias, que não tem outro propósito se não dilacerar-me.

Carlos A.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

confusão amorosa

uma bota-me para dormir
a outra tirava-me o sono
uma não permite-me ir
a outra era só abandono

uma pega-me no colo
a outra deixava-me de lado
uma prepara-me um bolo
a outra fazia-me um melado

uma sorri-me na matina
a outra madrugava tufão
uma é delicada menina
a outra era áspero rojão

uma causa-me epifania
a outra tinha-me segredo
uma tem ninfomania
a outra era rochedo

o nome da primeira,
chama-se Isabela
o da segunda
não lembro qual era

mas quanto amor sinto
por aquela que o nome esqueci
mesmo com seu modo distinto
sem ela adoeci

e se surgir a pergunta
eu não deixei de amar a primeira
já que o amor pela segunda
vem toda segunda-feira

Carlos A.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tem pranto que parece prece
em cada canto um pranto
e em cada prato um tanto
o tanto que se refece

Carlos A.